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Coração abismo



detalhe de "A Festa da Água e do Céu para celebrar
a vitória da Rocha (que permanece)"
América nos Olhos de um Alienígena O-1,
de Céu D'Ellia


Tenho esse coração buraco escancarado no meio do peito. 

Paradoxo: No fundo infinito desse abismo assustador, está o topo de uma infinitamente alta montanha de luz.

Paradoxo: Meu coração é o seu coração. Coragem. Salte. 


Yogacharya Céu,
SP 20 nov 2017

O Amor é o mais importante. (parte 2 de 5)


  • Um polêmico conto germânico do século XV. 
  • O mito do viveram felizes para sempre. 
  • Instituição x Verdade. 
  • Sinceridade.

No fim de semana de 27 e 28 de Maio de 2017, o grupo de São Paulo reuniu-se em um sítio para um Retiro de Aprofundamento em Kriya Yoga.  O tema de estudo: "O Amor é o mais importante."
O que segue é a segunda parte do texto base que foi desenvolvido nesse retiro:

Na noite do primeiro dia, nos reunimos ao redor de uma fogueira, para ouvir uma história.

Há muitas histórias que nos fazem refletir sobre o que é o Amor. Eu optei por uma que desafiasse o que tínhamos estudado até ali e colocasse uma perspectiva diferente. Muitas vezes é importante desaprender o que virou clichê na nossa cabeça. Tirar as teias de aranha das certezas.

Mas talvez eu tenha exagerado na dose. Algumas reações foram além do que eu esperava. Eu primeiro vou contar a história. Depois, explico:

A Penitência de São João Crisóstomo
(por Lucas Cranach, o Velho, circa séc.XV-XVI)
Este antigo conto germânico, do século XV, é uma versão folclórica medieval da vida de São João Crisóstomo. Se o conto já tem quase 500 anos, o santo é ainda mais antigo: Foi bispo nos primeiros tempos do Cristianismo, tendo nascido na Antioquia cerca de 345 d.C.

A História de João Boca de Ouro*

O conto, estranho e fantástico, diz que houve em Roma um Papa que gostava de viajar com seus cavaleiros. Em uma dessas viagens o Papa afastou-se do grupo e cavalgou, lenta e solitariamente, para um local ermo, afim de fazer suas preces. No silêncio solitário escutou um lamento. Uma voz infeliz se lamuriava. O Papa procurou pelo dono da voz, mas não viu ninguém. A voz continuava a chorar e se lamentar, mas nada se via.

O Papa pensou que se tratava de um fantasma e disse em voz alta:
-       Você, quem chora! Em nome de Deus me diga quem é!
A voz, dolorosamente respondeu:
-       Sou uma alma miserável e amaldiçoada, sofrendo nas chamas do inferno...

O Papa ficou com pena do infeliz e perguntou se havia algo que podia fazer para ajudá-lo.  Nada pode fazer! Foi a resposta. – Mas em Roma há um homem muito bom, casado com uma mulher cheia de virtude. Em breve eles terão um filho, que se chamará João. Crescerá um homem abençoado e se tornará sacerdote. Se ele rezar dezesseis missas em minha intenção, serei enfim libertado das chamas do sofrimento. Em seguida o fantasma deu detalhes de como encontrar o casal de pais. E depois de um longo urro que gelou o sangue do Papa, desapareceu.

De volta a Roma o Papa procurou pessoalmente o piedoso casal. De fato esperavam o nascimento de uma criança. Concordaram em receber a proteção do Papa. Quando a criança nasceu, foi levada até ele, que a batizou João.

Considerado pelo Papa como um filho, aos sete anos João foi para a escola. Mas o menino tinha muita dificuldade com os estudos e logo tornou-se alvo de chacotas dos colegas. Sentia-se envergonhado e triste. Assim que, a cada manhã, passou a rezar diante do altar de Nossa Senhora. Um dia, para sua surpresa, a imagem esculpida falou: - João, beija minha boca. Beija-me e se tornará o mais sábio homem da terra, mestre de todas as artes.  Com medo e tremendo, o menino fez o que a imagem pediu.

No mesmo dia, na escola, via-se a volta de sua boca um círculo dourado de luz brilhante. E sua inteligência desabrochou assombrosamente. Tudo ele respondia, tudo ele sabia. A partir desse dia passou a ser o professor da escola e recebeu o apelido de João Boca de Ouro.

O Papa, sempre lembrando da alma sofredora que encontrara anos antes, fez com que João fosse ordenado sacerdote o mais cedo possível.  O rapaz celebrou sua primeira missa mal completos dezesseis anos. Mas dentro de si João estava desconfortável diante de Deus. Achava-se jovem demais e despreparado. Decidiu que assim que terminasse o banquete em sua homenagem, logo depois da missa, deixaria toda aquela riqueza material, para se tornar um eremita pobre vivendo no ermo.

E assim fez. Apos receber as honrarias e felicitações e depois que os convidados foram embora, partiu escondido, vestido com trapos e levando apenas um pedaço de pão. Quando o Papa deu conta do sumiço do jovem prodígio, deu ordem de busca. Mas em vão. Ninguém encontrou o paradeiro de João, que instalou-se em um local escondido e deserto, na floresta, a beira de um abismo. Vivia em uma casa feita de cascas de árvores, comia raízes e ervas. Jejuava, orava e mantinha-se desperto, em busca da revelação.

Não muito longe dali, estava o castelo do Imperador. Um dia, a princesa, filha do monarca, estava colhendo flores, quando um forte tufão soprou subitamente. Ela e suas amigas foram levantadas pelo vento. Mas quando o vento passou, a princesa estava desaparecida. A guarda imperial a procurou incansavelmente, sem sucesso, abatendo de tristeza o Imperador.

De fato o vento levara a jovem donzela até a porta da cabana de João. Assustada, mas sem nenhum ferimento, a princesa ajoelhou diante da casinha e pôs-se a rezar, acalmando-se.  O rapaz ouviu a voz e veio ver o que era. Alarmou-se diante da beleza. Mas a jovem suplicou para que ele a abrigasse, argumentando que poderia morrer de fome ou ser atacada pelos animais da floresta. João cedeu e a admitiu em sua pobre casinha de um só cômodo.

João riscou uma linha no chão de terra da cabana, dividindo-a em duas partes iguais. Os dois passaram a viver juntos, mas sem se tocarem. Igualmente alimentavam-se de ervas e raízes, jejuavam e oravam. Mas crescia o desejo entre os dois e, depois de um certo tempo, João cedeu e entregaram-se ao prazer do corpo. E depois João caiu em arrependimento.

O arrependimento transformou-se em fúria. Empurrando a moça para que se afastasse, acidentalmente jogou-a no abismo que ladeava a casinha. No mesmo instante percebeu que acabara cometendo um erro muito mais grave. Gritou de dor e arrependimento: - Matei uma moça inocente!

João saiu correndo pela floresta, desesperado e aos prantos: - Senhor Meu Deus, por que me abandonou? Gritava. Então decidiu ir até Roma para se confessar na igreja. Coincidentemente foi o Papa, seu padrinho, quem recebeu sua confissão. Separados pela cortina do anonimato, os dois não se reconheceram. Ao ouvir o que João fizera, o Papa não aceitou o arrependimento: - Suma daqui! O que você fez não pode ser perdoado. Você é um animal selvagem!

João voltou a sua cabana. Pensava: - Não duvidarei da misericórdia de Deus, que é maior do que qualquer pecado. Prometo caminhar de quatro, como um animal, até que Deus me de a graça do seu perdão. E inclinou-se no chão e passou a viver assim. Passaram-se os anos e João nunca mais se levantou. Suas roupas apodreceram, seus cabelos e pelos cobriam a pele suja e áspera. Não parecia mais um ser humano.

Enquanto isso, em Roma, a esposa do Imperador deu a luz a uma nova criança. O Papa foi chamado para batizá-la. No momento em que tomou o bebê nos braços, todos em volta ficaram assombrados, porque o recém nascido falou. E suas palavras foram: - Não é você quem pode me batizar! Eu só serei batizado pelo Santo João, que virá da floresta, enviado por Deus. A criança foi devolvida imediatamente aos braços da ama de leite. Aturdido, o Papa perguntava a todos se sabiam onde estava esse tal santo João, mas ninguém sabia responder.

Por esses dias, os caçadores imperiais capturaram um estranho animal. Como o animal não tentou fugir e nem opôs resistência, foi trazido vivo  para o castelo. Solto no pátio, para que todos pudessem vê-lo, escondeu-se embaixo dos bancos. Uma multidão de curiosos cercou-o e tentavam empurrá-lo com varas e lanças, para que pudesse ser visto. Entre os curiosos estava a ama de leite, segurando o bebê do Imperador. E novamente, para o grande espanto dos que estavam presentes, o recém nascido falou: - Levanta, João! E venha me dar o batismo!

Novo espanto. O estranho animal no chão levantou a cabeça e todos viram que era a de um ser humano. E disse: - Se o que diz é verdade, e se essa é a vontade de Deus, fale novamente.

E o pequeno bebê repetiu: - João, meu amado! Sinta a alegria e a misericórdia divina, porque Deus perdoou os seus pecados. Levanta e venha me dar o batismo! E João colocou-se em pé. No mesmo instante toda a sujeira tombou do seu corpo como se fossem cascas. Limpo e iluminado, João foi vestido ao mesmo tempo em que batizava o infante.

Levado ao Papa e ao Imperador, não foi reconhecido como o João que partira anos antes. Mas exalava tanta paz e luminosidade, que foi recebido como um santo rei. Ouviram sua história e passaram a saber quem era. Mas ao Imperador restou o lamento. Chorou por sua pobre filha e pediu a João que o levasse até o local do acidente. Pensava que poderia recolher os ossos da falecida e dar-lhe ao menos um sepultamento.

João levou o Imperador e seu séquito até o despenhadeiro, local de sua antiga choupana. E quando debruçaram-se diante do abismo, mais uma surpresa assombrosa: Lá estava a princesa, envolta em luzes, viva e com a mesma beleza que tinha quando sumiu no dia do vento. – Os anjos me sustentaram! Disse ela, como se o tempo não tivesse passado. – O que esperam para me tirar daqui?

Todos voltaram para Roma. O imperador e sua esposa abraçados à princesa e agradecendo a Deus por mais aquele milagre. O Papa por sua vez, indagou João:
-       João, quantas missas celebrou?
-       Apenas uma. Aquela primeira. Respondeu
-       Meu Deus, a alma ainda o espera! Replicou o Papa. E explicou tudo que
acontecera, anos antes ainda do nascimento de João.

Durante os quinze dias seguintes, João conduziu as missas restantes, libertando a alma misteriosa de sua pena. Os anos passaram, João tornou-se bispo e suas palavras eram recebidas como bênçãos na forma de uma chuva de ouro. E quando escrevia e a tinta acabava, molhava a pena nos lábios e escrevia palavras de ouro. E assim, como na infância, voltou a ser chamado de João Boca de Ouro.

Fim da história.
(* A História de João Boca de Ouro pode ser encontrada, com mais detalhes, no livro “A Conquista Psicológica do Mal”, de Heinrich Zimmer, compilado por Joseph Campbell )

Ao terminar de contar a história, perguntei aos participantes do retiro o que achavam. Havia um certo sentimento de perplexidade e até incômodo.
Houve quem questionou o exagero de João. Para que se sentir tão culpado pelo desejo sexual. Por que não aceitou seu envolvimento com a princesa como amor, largou os dogmatismos da igreja e casou-se com ela.

E talvez pudessem viver felizes para sempre?
Será que é esse nosso real entendimento de amor, então?
Quando instigados a pensar no amor, produzimos conceitos filosóficos muito elegantes e belos. Mas quando chacoalhamos um pouco nossa memória, o que acaba vindo a tona é nosso desejo de viver um romance de conto de fada (com um pouco de erotismo, que ninguém é de ferro)?

Bem, nesse momento do retiro comecei a me perguntar se eu conseguiria realmente transmitir o que pretendia. De fato, no final do retiro, percebi claramente que não. Mas vamos ver um pouco melhor uma possível interpretação desse antigo conto, quase medieval:

Seria pouco inteligente discutir se os fatos dessa história são verdadeiros, parcialmente ou completamente imaginados. Ainda que eu mesmo tenha testemunhado que a ordem esperada da realidade possa ser alterada, os chamados milagres, não é isso que me importa neste conto. O que podemos aproveitar desse tipo de fábula sobrenatural, é o desafio ao entendimento de nossos próprios valores. O questionamento que podemos fazer sobre os alicerces de nossas crenças e a possibilidade de nos encontrarmos com o entendimento de seus símbolos como portas para nossa própria realização. As metáforas do inconsciente, que se manifestam em sonhos, contos populares e arte, são (algumas vezes) pistas para nossa libertação.

O contexto histórico dessa história é: Germânia (Alemanha) no século XV.  Está se vivendo o início da Reforma. É a época de Lutero e dos questionamentos sobre a autoridade do Papa e da Igreja Católica. Além disso evoca a figura de São João Crisóstomo, que no século IV foi um bispo que desafiou muitas vezes a instituição papal, para ficar do lado do povo humilde. O conto não desrespeita o Papa, mas o apresenta como um homem que, ainda que bom e compassivo, não alcança a dimensão espiritual da autêntica santidade. O conto revela logo no início uma forte reverência à adoração de Nossa Senhora, representada por uma imagem. Portanto tem raízes católicas e não adotou os dogmas do protestantismo. Mas questiona a instituição religiosa, representada pelo Papa, em contrapartida à autentica santidade, representada por São João. É um conto popular que anuncia, naquela época, o esvaziamento da crença na Igreja institucional, e a busca de uma autenticidade espiritual, em algum lugar mais verdadeiro e próximo das raízes.

E aqui está o ponto que realmente me fez contar esta história: A busca espiritual vai além das convenções institucionais. Muito importante: Para se encontrar a Verdade, o Amor que liberta, não se pode temer rever as regras que impõe obediência cega.

Não importa a ideologia ou a crença religiosa: o dogmatismo sempre aparece quando as pessoas se reúnem e começam a criar regras. É bom que as pessoas possam se organizar para fazerem o bem, para invocarem o Amor. Mas é preciso estar alerta para que a organização não se torne mais importante que o Amor. O Amor é o mais importante.

Uma das coisas que chama a atenção na história de João Boca de Ouro é que, apesar de suas limitações, sua dificuldade em estudar, seu destempero que acaba empurrando a moça para o despenhadeiro, existe algo dentro dele que o guia. Sua realização já estava traçada desde antes do nascimento: Até no Inferno ele era esperado para trazer a libertação. Mas ele ainda não estava livre quando nasceu. Ainda não tinha encontrado dentro de si a criança divina que o chamaria para revelar a si mesmo. E essa criança, por força de seu empenho em encontrar a Verdade, acaba falando pela boca de uma outra, para que ele possa finalmente estar em pé, coluna ereta, pronto para fazer o que cumpre-se que se faça através dele.

Sim, quando ele é menino, por força da inocência, revela por um tempo a sua identidade: é a primeira aparição de João Boca de Ouro, o menino ignorante que subitamente se torna um professor. Mas a adolescência lhe traz o corpo adulto e os hormônios. Como lidar com as próprias paixões, com o desejo, com a raiva, a sensação de impotência e o sentimento de culpa? Ele busca o caminho institucional: a confissão e o perdão do padre no confessionário. Mas nem o próprio Papa, que também é seu padrinho é capaz de libertá-lo. Ele precisa se curvar e buscar dentro de si. Há porém algo que não se curva: a convicção que a Misericórdia, que não é outra coisa senão o Amor Divino, é maior do que qualquer erro, do que qualquer pecado.

- A qualidade número um do buscador espiritual é a sinceridade, diz Baba Hariharananda. Isso não significa ser bruto ou inconveniente com os outros. Podemos desenvolver a paciência e o respeito com os outros, mas sempre sendo sinceros com nós mesmos. A sinceridade e franqueza é consigo mesmo. Quem realmente quer encontrar a realização do Amor e da Verdade espiritual, não pode se enganar.
Precisa admitir para si mesmo o que realmente está pensando, sentindo, entendendo, e quais são suas dúvidas. Trata-se de uma permanente e profunda investigação interior. Não pode aceitar meias verdades, que são meias mentiras, com a desculpa de estar “bem” com uma situação que na verdade nem entende e nem aceita. Admitir as próprias limitações. Não idolatrar pessoas. Não ser hipócrita. 

Entende por que escolhi essa história? Há que se buscar dentro de si, sinceramente, o Amor, se quiser entender o que realmente é a Meditação e a prática de Kriya Yoga: - O Amor é o mais importante.

Há que se tomar cuidado com as instituições. Cuidado para não transformar sua prática de Kriya Yoga em uma adoração institucional aos gurus, aos livros, à técnica, às palavras. É fundamental não transformar a prática da meditação em um culto ao próprio ego: - Eu sou mais importante, porque medito. Eu sou mais importante porque sigo o Guru X, ou o Mestre Z. Ou  sou mais importante porque sou um inteligente ateu, ou um inteligente qualquer outra coisa. Não é nem a instituição e nem você que são o mais importante para a realização na meditação. O A-M-O-R é o mais importante.

Certamente um dos pontos em que as pessoas se confundem nesse conto, é a repulsa de João ao sexo. Nos faz pensar nos dogmas ultrapassados de religiões que condenam o prazer sexual, ou que o consideram pecaminoso. Mas vou deixar para tratar desse assunto na próxima parte desta série.

Na noite em que estudamos essa história, antes de nos recolhermos para o sono, uma das participantes propôs que uma dança circular em volta da fogueira. Foi bem legal. Minha cabeça descansou um pouco. Mas comecei eu mesmo a perceber que não estava à altura da tarefa que tinha me proposto. Eu ainda não tinha em mim consciência suficiente do Amor, para poder compartilhá-la. Ainda estava me escorando demais em palavras e conceitos. 

Yogacharya Céu, São Paulo, maio-agosto 2017


O que você busca?


Fora da fonte de si, são apenas as projeções: A imagem do outro e a auto-imagem.

Não é busca. É criação de personagens: O deus e a negação do deus. Um deus e um satanás. Minha tribo e as dos outros. Hierarquias.

Há quem de fato busca.
Mas busca o que?

Quem busca poder, não encontra libertação. Encontra hierarquias.

Quem busca libertação, encontra também poder.

Quem busca amor, só encontra se desaprender a mentir. Para o outro, para si.

Humildade: Não se busca. É a humildade quem encontra você.

Yogacharya Céu
 

São Paulo, 2017-Nov-08


Programa de São Paulo de 2017, com Sarveshwarananda


E aconteceu em Sampa mais um programa de estudos e iniciação na meditação Kriya Yoga. Conforme ensinada por Paramahansa Hariharananda, seguindo a tradição do Ashram de Karar.

O programa foi guiado pelo Yogi Sarveshwarananda, que atualmente reside no ashram em Buenos Aires. Depois de São Paulo, foi para a França, para guiar outro programa.

Neste ano 2017, as atividades foram amorosamente programadas e dirigidas pelas Mamajis Cintia Lima e Camila Bogéa. Muita gente do grupo colaborou voluntariamente. Gratidão a todos.


Fico feliz que o grupo continue se desenvolvendo, gradualmente e com vivências tão amorosas. Desenvolver a maravilhosa paz interior, de onde nascem tantas coisas perfumadas e claras, só com respiração, e sem nenhum artifício químico ou culto ilusório a falsos mestres narcisistas.
Manter a disciplina da meditação diária e de algum trabalho voluntário, uma vez ou outra, mas sempre feito com alegria.

Eis um grande feito. 


Boa libertação pra todos. 

Nos vemos no Oceano de Luz.

Yogacharya Céu
Sampa, outubro de 2017


Consciência do Nada


JIVA 4- PLANOS, desenho-litogravura de Céu D'Ellia

O VEDANTA cita, entre os aspectos da mente, AHANKAARA.

Quem estuda sânscrito sabe que traduções diretas das palavras são impossíveis ou, ao menos, não recomendáveis. Meus professores desse idioma, que também são meus professores de meditação, diriam que o significado do sânscrito só pode ser entendido, inicialmente, por aproximação explicativa. E em seguida, mais que compreendido, “realizado” pela prática constante da meditação.



Assim, uma forma aproximada de entender AHANKAARA, é como o aspecto de nossa mente que faz a separação entre “eu” e “outro”, ou “eu” e “resto do mundo”. É chamado também de semente da separação. A separação, na consciência, do que se entende como “eu” e de “tudo que não é o eu”.

Também podemos dizer, ahankaara é o “eu que pensa que faz”, o “eu que pensa que é”. É aquela parte da mente que esquece que o corpo é conseqüência de fatos e matéria que antecedem o próprio nascimento. Que esquece que as próprias ideias, palavras, conceitos, existem independe e anteriormente à percepção de “eu”. E continuarão depois da morte desse “eu”, através do mundo e dos outros.

Costuma-se traduzir AHANKAARA como EGO. Mas não é mesma coisa. O que se entende como ego engloba o ahankaara e mais outros aspectos da mente. Poderia se dizer, de forma simplificada, que enquanto uma pessoa que perde a noção de EGO, enlouquece, por outro lado, uma pessoa que se liberta de AHANKAARA, alcança a consciência transcendental. Ou seja, a consciência que vai além de si própria e que é capaz de enxergar o outro como um fenômeno de uma só totalidade do qual todos fazem parte. Uma consciência, portanto, que se torna compassiva, intuitiva e empática.



Dizemos também que ahankaara, semente da separação, é assim também semente da “angustia primordial”. Um estado de desconforto atávico que todo ser humano comum carrega desde o nascimento. Alguns com alguma consciência disso, outros com nenhuma. Uma insatisfação, nunca superada, que procura ser preenchida por experiências físico-sensoriais, emocionais e intelectuais. O motivo dessa “angústia primordial” seria a separação que se dá na consciência, quando o ser deixa de fazer parte do Todo e passa a se perceber indivíduo. Há o prazer de se perceber existente e há a dor da separação da totalidade. Entre o prazer e a dor, aloja-se a angustia.



Os aspectos da mente só podem ser plenamente percebidos em estados específicos da própria mente. Perceba que “aspecto” e “estado” são termos diferentes. Aspecto é uma característica, um elemento. Estado é um local, uma instância.

A inter-relação entre aspectos e estados determinam o tipo (ou qualidade) de consciência de um ser individual.



(Aqui, um parênteses...
Talvez a Fenomenologia, que é uma corrente filosófica surgida no Ocidente, bem no final do séc. XIX, tenha aberto espaço para se perceber, no auto-proclamado mundo ocidental, que as práticas orientais de meditação não eram meros rituais supersticiosos. Um discernimento que já se esboçava ainda algumas décadas antes, com as ideias filosóficas de, entre outros, Immanuel KANT e Arthur SCHOPENHAUER.

Mas é apenas em meados do século XX, com os avanços científicos nos estudos do funcionamento do sistema nervoso central humano, que se começa a perceber que, além de fonte de reflexões filosóficas, meditação é uma ciência que pode ser verificada empiricamente e que tem gradações quantificáveis de desenvolvimento. O fato objetivo é que descrições sobre o funcionamento da mente, registradas nos UPANISHADS em tempos remotos, hoje são verificadas em laboratórios e análises do metabolismo humano. Por exemplo, os chamados “estados da mente” e as hoje estudadas variações das ondas cerebrais.

... que fecha aqui)



Meditação é, em primeiro momento, uma prática de auto-investigação. Dependendo de algumas condições, torna-se um processo de discernimento do que é periférico e do que é central no fenômeno da consciência. Na minha prática pessoal de meditação, assim como no acompanhamento do desenvolvimento de meus alunos, percebi que, o ponto de transição da consciência que supera a angústia primordial é aquele que supera a identificação com a própria forma transitória. É quando a consciência do NADA deixa de ser um medo, para ser uma fonte de paz e prazer.

É quando se percebe que a fonte que alimenta a própria existência, o TUDO, é o próprio Nada. 
A identidade deixa de ser uma soma de projeções periféricas e se torna a consciência pura de um EU central e vazio, completamente vivo e preenchido de NADA.

TUDO que existe é a moldura de NADA. Através de tudo, se realiza o nada. Através da consciência conciliada com o nada, cada instante se torna único, inteiro, total.

Quanto mais um indivíduo é capaz de se aproximar da consciência do Nada, mais ela/ele desenvolve qualidades de integração, auto-consciência e prazer transcendental (ou não limitado por circunstâncias materiais).

Yogacharya Céu
SP 10 out 2017

Quem é o Yogacharya* Céu?

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*Yogacharya: Professor autorizado

Nascido em 1963, estuda meditação e técnicas de integração da consciência e do corpo desde a adolescência, entre as quais o Sengei N’garo (arte marcial tibetana), a Natação Zen (japonesa) e o Kathakali (dança marcial masculina indiana).

Suas primeiras práticas de meditação formal começam em 1987, com a Meditação

em Movimento na linha Theravada do Ceilão, pelo Venerável Puhuwelle Vipassi, técnica da linha que deu origem ao que hoje se chama Mindfulness. Em 1997 é iniciado por Chagdud Tulku Rinpoche na prática avançada de Phowa Budista Tibetano.


Em 2000 é iniciado em Kriya Yoga, na linhagem de Sree Lahiri Mahasaya – Harirananda, do Ashram de Karar de Puri, Índia. Em 2011 é autorizado como Yogacharya Céu, dessa linhagem. Conviveu brevemente com Paramahansa Hariharananda (1907-2002), de quem recebeu ensinos diretos. Hariharananda é Mestre Realizado em Kriya Yoga, discípulo direto de Yogananda e Sree Yukteshwar.

Atualmente o Yogacharya Céu segue seus estudos com dois antigos alunos de Hariharananda, o Yogi Sarveshwarananda (Buenos Aires) e o Yogacharya Don Abrams (New York City).


Sarveshwarananda, setembro 2017 em São Paulo

Sarvesh estará em São Paulo de 14 a 18 de Setembro de 2017. Programe-se e aproveite!

Nascido na França em 1959, David Vachon recebeu o nome Sarveshwarananda quando tornou-se monge em 1998


Desde 1988 começou a estudar com um dos mais notáveis professores de Kriya Yoga de todos os tempos, Paramahansa Hariharananda (1907-2002), mais conhecido afetuosamente por seus alunos como Baba (Paizinho). De fato, o encontro entre ele e Baba foi bem impactante. De ateu e anarquista convicto, formado em Comunicação pela Sorbonne, David tornou-se monge renunciado e cuidador direto e mais próximo de Baba, durante os últimos anos de vida deste. Ao todo estudou e conviveu diretamente com Baba por 14 anos.

Com a morte (mahasamadhi) de Baba em 2002, Sarvesh parte para um retiro de silêncio de quase dois anos, nas montanhas dos Himalayas. Retorna em seguida, para conduzir durante 10 anos, uma série de ações humanitárias na Índia e América do Sul. Em 2009 abandona o voto monástico e em 2011 tem uma filha. Atualmente mora em Buenos Aires e viaja regularmente, iniciando alunos em meditação Kriya Yoga, oferecendo workshops de auto-conhecimento e atendendo consultas particulares de medicina ayurvedica. 

Em São Paulo, neste Setembro de 2017:

Se você quer se CONSULTAR particularmente com Sarvesh, para diagnóstico em MEDICINA AYURVÉDICA ou para seu DESENVOLVIMENTO PESSOAL:
- Contate José Orbino: jorbino@gmail.com/ cel: (11) 9 4144 8447.
- Preço da consulta individual: R$ 270,00

Se você quer participar de um curso rápido sobre a BHAGAVAD GITA como instrumento de auto conhecimento (workshop SOMOS UM BHAGAVAD GITA VIVO):

- Contate Marcos: mtvf@hotmail.com/ cel: (11) 9 9688 6377. 
- Preço: R$ 170,00
- Duração 4 horas (14h30 às 18h30), Domingo 17 de Setembro de 2017

Se você quer se iniciar na técnica de meditação KRIYA YOGA:

- Vá na palestra gratuita, para receber todas as informações e tirar suas dúvidas.
- A PALESTRA GRATUITA (DESCOBRINDO O PROPÓSITO DA VIDA) acontecerá na quinta-feira, dia 14 de Setembro de 2017, das 19h às 20h30, no Centro Cultural da Índia. Alamenda Sarutaiá, 380. Jardim Paulista.
- Reserve o Sábado, dia 16 de Setembro para sua iniciação.
- Contate Camila Bogea: camilabogea@hotmail.com/ cel (11) 9 8409 0323.
- Quem quer se iniciar, além de estar presente na PALESTRA GRATUITA, precisa oferecer, no dia da iniciação, CINCO FRUTAS, CINCO FLORES e DONATIVO FINANCEIRO de R$ 396,00

Com Amor,
Yogacharya Céu

Primeiro Programa de Kriya Yoga em Manaus

De 15 a 19 de Junho de 2017, aconteceu em Manaus o primeiro programa de Kriya Yoga nessa cidade. Segundo a tradição da linhagem transmitida de Lahiri a Yukteshwar, Yogananda, e até Hariharananda*, do Ashram de Karar.

A Kriya Yoga é uma prática de meditação profunda. Não é religião e nem somos um grupo sectário. Qualquer pessoa, atéia ou de qualquer credo espiritual, pode aprender e praticar. É baseada em técnica científica, de desenvolvimento mensurável, segundo antigas tradições que circulam há milênios no subcontinente Indiano. Traz benefícios comprovados por pesquisas científicas recentes. Para a saúde física, mental e para o amadurecimento psicológico.


Inúmeras vezes ao longo dos séculos a transmissão dessa prática sutil foi perdida. Nem sempre os professores alcançam o estágio de pleno desenvolvimento e, gradualmente, de geração em geração, perde-se a pureza necessária para a correta iniciação de novos alunos.


O iniciador moderno da linhagem, Lahiri Mahasaya*, alertava quanto aos riscos de transformar a difusão da prática em atividade de grandes instituições. Apenas quem se aprofunda de verdade na consciência imaterial pode entender os alertas de Lahiri, e o processo de diluição e perda da pureza da transmissão. Mas o que posso dizer, de forma mais pragmática, é que quanto maiores os grupos, mais política, mais disputa de poder e maiores quantias de dinheiro envolvidas. Substitui-se o estudo pelo culto de personalidades e pela ganância material. Consequentemente, menos foco na prática e na realização Kriya. Mais narcisismo e menos pratyahara.

Sou grato à vida por ter podido olhar nos olhos de Hariharananda (1907-2002), pouco menos de um ano antes de sua morte. Eu não poderia saber o que sei hoje sobre o que se esconde nos olhos dos seres viventes, se não tivesse tido essa oportunidade reveladora. Também não poderia ter aprendido o que aprendi (e continuo estudando) se não tivesse estado tão próximo de tão dedicado, amoroso e generoso professor.
Era ele um iluminado? Como posso saber?
Dizemos que ele é um Mestre Realizado, porque atingiu o desenvolvimento mais elevado da Kriya Yoga, atingindo o raro estágio de Nirvikalpa Samadhi, que entre outras coisas tem como características físicas, a ausência de pulso e respiração.

Sei também que aconteceram alguns fenômenos muito incomuns entre eu e ele, no período de poucas semanas em que estivemos fisicamente juntos. Mas afirmar que esta ou aquela pessoa é iluminada... É melhor ter cautela com isso.
O primeiro grupo de kriyayogis de Manaus
No entanto, já presenciei muitas pessoas que se declaram iluminadas e muitas outras que acreditam (ou fingem acreditar) nesses pseudo-iluminados auto-declarados. É um jogo ilusório que não tenho nenhum interesse em participar.

Fui confirmado Yogacharya, podendo iniciar interessados em conhecer e praticar Kriya Yoga, por outros dois alunos diretos de Baba Hariharananda: Yogi Sarveshwarananda e Yogacharya Don Baba. Ambos estudaram e conviveram com Baba por algumas décadas. O primeiro me confirmou em 2011 e o segundo mais recentemente, no início deste 2017. É uma grande responsabilidade. Faço o melhor possível para aprimorar, todos os dias, a todo momento, a minha própria prática. Porque quero oferecer o melhor possível para quem se aproxima de mim para aprender algo. Mas sou apenas um minúsculo yogacharyazinho. Um ser humano perfeitamente imperfeito, como todos os outros.

Fiquei muito feliz com a iniciação em Manaus. Organizada com Amor pelos inspirados Marcelo Calegare e Fernanda Priscilla. Contei também com o Amor, apoio e colaboração de minha esposa Fedra de Faria e do amigo Moacir Biondo (e toda sua família). Grato a todos eles.



Realizamos duas palestras gratuitas e abertas a interessados. Uma delas em auditório no prédio da Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas. Iniciamos 23 pessoas.
A qualidade dos alunos é EXCELENTE. Uma grande alegria ter tido essa maravilhosa oportunidade. Todos com grande potencial e poderão superar facilmente este pequeno professorzinho, se dedicarem-se.

O dinheiro arrecadado foi utilizado para pagar as passagens aéreas e outras despesas. O restante foi doado: parte para que o grupo de Manaus comprasse materiais de estudo, parte para o grupo de São Paulo pagar passagens aéreas dos próximos programas que trarão Yogi Sarveshwarananda e Yogacharya Don Baba. 


Fique atento porque muito em breve postarei aqui sobre o próximo programa de nosso amigo Sarveshwarananda, em São Paulo, em Setembro de 2017.

Agradeço com Amor a Todos os envolvidos. 
Yogacharya Céu



*Conheça nossa linhagem aqui: Nossa linhagem de transmissão Kriya Yoga

O Amor é o mais importante. (parte 1 de 5)


  • A instrução de Hariharananda. 
  • Maior que a Fé e a Esperança. 
  • Eros, Philia, Ludus, Pragma, Philautia e Ágape. 
  • Ódio e Medo. 
  • Kriyavans definem o Amor. 
No fim de semana de 27 e 28 de Maio de 2017, o grupo de São Paulo reuniu-se em um sítio para um Retiro de Aprofundamento em Kriya Yoga.  O tema de estudo: "O Amor é o mais importante."


O que segue é o texto base que foi desenvolvido nesse retiro:

  


Ao ser iniciado em Kriya Yoga na linhagem de Hariharananda, o aluno aprende uma sequência de sete técnicas, precedidas de sete preparações preliminares. A sétima e última preparação é: - Faça com Amor.


- O Amor é o mais importante. 


Essa é uma citação comum do Guru, Paramahansa Hariharananda (1907-2002). Baba, como nós mais afetuosamente o chamamos, sempre repetia, quando guiava as meditações: - Amor, amor, amor. O Amor é o mais importante.



Sempre lembro dessa fala. De fato, uma frase bem poética e simpática. Mas foi somente após 16 anos de prática, quando havia mudado para New York City, já meditando nos Kriyas mais avançados, que dei o clique: há muito mais nessa frase do que poesia e acolhimento. Baba não repetiria algo tão insistentemente, se isso não fosse realmente muito necessário. Não é apenas um conselho amoroso e camarada. Para realizar a conexão Kriya, de fato, mais que nada, o Amor é o mais importante.



E por que? Por que, para a prática de Kriya Yoga, o Amor é o mais importante?



Sim, você pode me dizer, fazer qualquer coisa com amor é bom, porque nos coloca em uma melhor disposição diante do que temos que fazer. 
Você pode citar o lindo capítulo 13 da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios:



“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor*, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. A Caridade é sofredora é benigna; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo Sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.”



(* A palavra “amor” na epístola é originalmente, em grego, “agape” que, em algumas traduções, aparece com o vocábulo “caridade”.)



Você pode dizer tudo isso pra mim e eu vou concordar.  Mas tem mais. Baba está nos orientando que o aspecto mais importante da meditação é o Amor. Não é o Guru, ou a técnica, a concentração, o professor, ou o grupo do qual fazemos parte. Não são os anos de experiência e muito menos a quantidade de informações que acumulamos sobre o que é meditação ou espiritualidade. É o Amor. O Amor é o mais importante.



Mas o que é o Amor? A que Amor Baba se refere?



Uma das formas mais comuns de se tentar explicar o Amor é através de seis palavras gregas que definem seis tipos diferentes de amor:

Eros, Philia, Ludus, Pragma, Philautia e Ágape.



- Eros é a paixão sexual, a atração física. Pode ser uma forma de aproximar intimamente as pessoas, mas também pode aflorar o desejo de dominar e possuir.


- Philia é a amizade profunda. O amor que se desenvolve entre pessoas que compartilham a vida com solidariedade e lealdade.


- Ludus é o compartilhar em brincadeira. Comum entre as crianças, surge também entre adultos que se reúnem para uma festa, para dançar ou praticar um esporte.


- Pragma é o amor duradouro, aquele que se desenvolve entre pessoas que compartilham a vida juntos, como os casais. É fruto de paciência e dialogo compassivo.


- Philautia é o amor por si mesmo. Pode se tornar algo perigosamente narcisista, mas pode também ser o amor da auto-confiança, da busca interior pelo auto-conhecimento.


- Ágape é o amor incondicional, desapegado. Considerado a forma mais elevada de amor,  porque é aquele dedicado à humanidade inteira. O amor de quem se preocupa em amparar estranhos, sem esperar nada em troca.




Há também quem explique o que é o Amor, pelo seu oposto. E o oposto do Amor não seria o ódio, mas o medo.

Porque o ódio é um estado de atração invertida. Quem odeia, sente-se ligado ao objeto do ódio. Assim como quem ama, sente-se ligado ao objeto do amor. Mas o medo, desliga, afasta. Enquanto o Amor liga, reúne.

Quem tem medo se recolhe, esconde, se fecha. Quem ama se abre, vai à vida.



Tudo isso é muito interessante e ecoa dentro da maioria de nós como verdadeiro. Mas ainda tem mais. Todas essas explicações acima, por exemplo, dizem respeito às pessoas, ao amor como algo que nasce nos seres humanos. E o Amor pode ir mais além da gente. Pode ser transcendental.



Após discutir com os participantes o que vai acima, pedi que eles conversassem entre si e encontrassem definições sintéticas para dizer o que entendem como amor. Isto é o que eles escreveram:



" O Amor nos une, torna indiferente nossas diferenças. Não apenas entre humanos, mas entre todos seres viventes. É indizível, inefável. Cada um exerce o Amor que lhe é possível." 

" Amor, força que integra, mobiliza, reúne, dá segurança, através de Compaixão, tolerância, doação, empatia, entrega e outras manifestações. Estratégia evolutiva."
" O Amor é uma força poderosa e transformadora, que faz compreender o incompreensível. Por Amor se faz o que é preciso mesmo no fim das forças." 

" O Amor é a força que une e transforma. O Amor está em tudo e em todos." 

" O Amor é uma escolha. Escolher estar inteiro em cada momento, em cada ação. Dar o nosso melhor, buscando não um ganho pessoal, mas que tudo se ajeite da melhor maneira possível." 

" O Amor é uma sensação, uma energia, uma força não-racional, universal, transcendental. Seja para com si próprio ou o outro, e que integra e nos une." 

" Energia criadora, mantenedora e provedora." 

" O Amor = Presença divina que cria, mantém e transforma o universo." 

" Amor, a percepção e atenção com o próximo, aceitação, o que nutre." 

" Amor: Força e consciência, criadora, nutridora, transformadora, curativa. Permeia o Tudo e o Nada. Está em tudo, é tudo. Rege a natureza, a vida. Se propaga, reverbera no universo." 

" O Amor é o sentimento de dissolver-se (eu) plenamente em algo maior (Eu maior, Eu cósmico)."  

" Amor é a força harmônica incondicional universal de atração que une e sustenta todos os versos, numa dança." 

" Amor é estar sempre inteiro em cada momento. Suas várias formas são como camada superpostas. Cada uma é única, e de cada uma se vê apenas uma parte, mas estão juntas." 

" Amor, querer o bem, pensar o bem e fazer o bem, dentro de nós e para alem de nós mesmos." 

" Amor é ter paixão pela vida e compaixão pelo próximo. É energia que renova. É doação" 

" O Amor é a força incondicional, que une e sustenta o Universo."
 

Eu acho todas essas ideias e definições, que os participantes do retiro escreveram, muito lindas. Mas, voltando ao início do meu texto, ainda assim não parece que explicam muito claramente porque Baba Hariharananda diz que, para a Kriya Yoga, o Amor é o mais importante.

Nos próximos quatro textos desta série eu vou continuar aprofundando isto e apresentando parte do material que foi desenvolvido para esse retiro.


Yogacharya Céu, São Paulo, maio-agosto 2017

O Amor é o mais importante, parte 2 de 5
O Amoroso Grupo de Kriya Yoga de São Paulo:
- Reunído para estudar o que é mais importante.